Comentários de João 5
Cristianismo

Comentários de João 5


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Este capítulo faz parte da obra: “O Novo Testamento Comentado”, de autoria de Lucas Banzoli e de livre divulgação.
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1. Depois disto houve uma festa dos judeus, e subiu Jesus para Jerusalém.
2. E há em Jerusalém à [porta] das ovelhas um tanque, que em hebraico se chama Betesda, que tem cinco entradas cobertas.
3. Nestes jazia grande multidão de enfermos, cegos, mancos, [e de corpo] ressecado, aguardando o movimento da água.
4. Porque um anjo descia de vez em quando ao tanque, e agitava a água; e o primeiro que descia nele, depois do movimento da água, sarava de qualquer enfermidade que tivesse.
5. E estava ali um certo homem, que havia trinta e oito anos que estava enfermo.
6. Vendo Jesus a este deitado, e sabendo, que já havia muito tempo que [ali] jazia, disse-lhe: 
Queres sarar?
7. Respondeu-lhe o enfermo: 
Senhor, não tenho homem algum para que, quando a água se agita, me ponha no tanque; e enquanto eu venho, outro desce antes de mim.
8. Disse-lhe Jesus: 
Levanta-te, toma teu leito, e anda.
9. E logo aquele homem sarou; e tomou seu leito, e andou. E era Sábado aquele dia.
10. Disseram pois os judeus para aquele que fora curado: 
É Sábado, não te é lícito levar o leito.
11. Respondeu-lhes ele: 
Aquele que me curou, esse me disse: 
Toma teu leito, e anda.
12. Perguntaram-lhe pois: 
Quem é o homem que te disse: 
Toma teu leito e anda?
13. E o que fora curado, não sabia quem [o] era, porque Jesus se havia retirado, porque naquele lugar havia uma [grande] multidão.
14. Depois Jesus achou-o no Templo, e disse-lhe: 
Eis que já estás são; não peques mais, para que não te suceda alguma coisa pior.
15. Aquele homem foi anunciar aos judeus que Jesus era o que o curara.
16. E por isso os judeus perseguiam Jesus e procuravam matá-lo, porque ele fazia estas coisas no sábado.
17. E Jesus lhes respondeu: 
Meu Pai até agora trabalha, e eu [também] trabalho.
18. Por isto ainda mais procuravam os Judeus matá-lo, porque não só quebrava o sábado, mas também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus.
19. Respondeu pois Jesus, e disse-lhes: 
Em verdade, em verdade vos digo, que não pode o Filho fazer coisa alguma de si mesmo, a não ser aquilo que ele veja o Pai fazer; porque todas as coisas que ele faz, semelhantemente o Filho também as faz.
20. Porque o Pai ama ao Filho, e todas as coisas que faz lhe mostra; e maiores obras que estas lhe mostrará, para que vós vos maravilheis.
21. Porque como o Pai aos mortos ressuscita e vivifica, assim também o Filho aos que quer vivifica.
22. Porque também o Pai a ninguém julga, mas todo o juízo deu ao Filho,
23. Para que todos honrem ao Filho, como honram ao Pai. Quem não honra ao Filho, não honra ao Pai que o enviou.
24. Em verdade, em verdade vos digo, que quem ouve minha palavra, e crê ao que me enviou, tem vida eterna, e não virá em condenação, mas passou da morte para a vida.
25. Em verdade, em verdade vos digo, que a hora vem, e agora é, quando os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e aos que ao ouvirem, viverão.
26. Porque como o Pai tem vida em si mesmo, assim deu também ao Filho que tivesse vida em si mesmo.
27. E deu-lhe poder, para fazer juízo, porque é o Filho do homem.
28. Não vos maravilheis disto; porque a hora vem, em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão sua voz.
29. E sairão os que fizeram bem, para a ressurreição de vida; e os que fizeram mal, à ressurreição de condenação.
30. Não posso eu de mim mesmo fazer alguma coisa. Como ouço, [assim] julgo; e meu juízo é justo; porque não busco minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou.
31. Se eu testemunho de mim mesmo, meu testemunho não é verdadeiro.
32. Outro há que testemunha de mim, e sei que o testemunho, que testemunha de mim, é verdadeiro.
33. Vós enviastes [mensageiros] a João, e ele deu testemunho à verdade.
34. Porém eu não recebo testemunho humano; mas digo isto para que sejais salvos.
35. Ele era uma lâmpada ardente e brilhante; e vós quisestes por um pouco de tempo alegrar em sua luz.
36. Mas eu tenho maior testemunho que [o] de João; porque as obras que o Pai me deu que cumprisse, as mesmas obras que eu faço, testemunham de mim que o Pai me enviou.
37. E o Pai que me enviou, ele mesmo testemunhou de mim. Nunca ouvistes sua voz, nem vistes sua aparência.
38. E não tendes sua palavra permanecendo em vós; porque ao que ele enviou, a esse vós não credes.
39. Investigai as Escrituras; porque vós pensais que nelas tendes a vida eterna, e elas são as que de mim testemunham.
40. E não quereis vir a mim, para que tenhais vida.
41. Não recebo honra humana.
42. Mas eu bem vos conheço que não tendes o amor de Deus em vós mesmos.
43. Eu vim em nome de meu Pai, e vós não me aceitais; se outro vier em seu próprio nome, a esse aceitareis.
44. Como podeis vós crer, [se] tomais honra uns dos outros, e não buscais a honra que [vem] somente de Deus?
45. Não penseis que eu vos tenha de acusar para com o Pai; o que vos acusa é Moisés, em quem vós esperais.
46. Porque se vós crêsseis em Moisés, [também] a mim me creríeis; porque de mim ele escreveu.
47. Mas se não credes em seus escritos, como crereis em minhas palavras?



5.17 meu Pai até agora trabalha, e eu também trabalho. O grego emprega o tempo contínuo, literalmente: “continua trabalhando até agora”, o que mostra que Deus não “descansa” no sábado, que foi a justificativa usada por Jesus para a cura realizada por ele naquele dia. Isso não entra em conflito com o relato do Gênesis que diz que Deus “descansou” no sábado, porque ali “descansar” está no sentido de deixar de criar, pois Ele havia em seis dias criado tudo e parou de criar naquele sétimo dia. Isso obviamente não significa que Deus não trabalhe ou não que Ele não age no sábado, incluindo com curas físicas, que é o tema tratado neste contexto. Aparentemente os judeus criam que Deus continuava descansando no sábado e que nem o próprio Criador trabalhava neste dia, mas que agia somente nos outros seis dias da semana. Este exagero é condenado por Cristo, que mostra que Deus nunca deixou de trabalhar, e que continua trabalhando desde a criação até hoje.

5.18 fazendo-se igual a Deus. Jesus não refutou isso (como teria feito caso não fosse Deus), mas o confirmou, dizendo que ele ressuscita os mortos assim como Deus faz (v.21), que o Pai confiou todo o julgamento ao Filho (v.22) e que todos devem honrar ao Filho da mesma forma que honram o Pai (v.23). Se Jesus não fosse Deus encarnado e tivesse sendo chamado de “Deus”, ele certamente reagiria a isso e evitaria os maus entendidos, pois não aceitaria receber para si a glória que competiria só ao Pai, o que seria blasfêmia. Ao não rejeitar, ele aceita e confirma que se fazia igual a Deus.

5.21 assim também o Filho aos que quer vivifica. Somente Deus pode dar a vida e trazer à existência, e aqui Jesus diz que tem o mesmo poder de ressuscitar os mortos como o Pai possui, deixando mais uma vez implícito que era verdadeira a declaração dos judeus sobre ele ser igual a Deus (v. nota anterior).

5.23 para que todos honrem ao Filho, como honram ao Pai. Este “como”, no original grego, é kathos, que significa: “justamente como, exatamente como; na proporção que, na medida que” (Strong, 2531). Isso mostra que a honra devida ao Filho é exatamente a mesma honra que devemos ao Pai. Se Jesus fosse inferior ao Pai em importância ou em essência, ou se fosse meramente um ser criado ao invés de ser Deus, isso certamente seria blasfêmia, pois Jesus nos estaria induzindo a honrar uma criatura na mesma medida e proporção em que honramos o Criador, como se um ser criado tivesse a mesma glória que o próprio Deus. Ele só disse aquilo porque estava realmente confirmando que era “igual a Deus” (v. nota em Jo.5:18 e em Jo.1:1).

5.28-29 Há diversas provas de que Cristo estava falando de uma ressurreição física aqui, e não mais de uma “ressurreição espiritual”, como a tratada no verso 25, onde somente alguns mortos (espirituais) ouviam a voz de Deus e viviam (espiritualmente). Primeiro, porque a ressurreição espiritual é para “alguns” (v.25), enquanto a ressurreição tratada nos versos 28-29 é para “todos” (v.29). Segundo, porque os que fazem parte desta ressurreição física estão “nos sepulcros” (v.28) e “sairão” (v.29) dali quando ouvirem a voz de Cristo, o que transmite mais vividamente um sentido físico do que espiritual à passagem. Terceiro, porque nem todos ressuscitam para a vida, mas alguns “para a condenação” (v.29), e não existe “ressurreição espiritual” para a condenação, mas somente para a vida, quando deixamos o velho homem para trás e passamos a viver com Deus. Jesus não ressuscita ninguém espiritualmente para fazer o mal e ser condenado. Estes versos refutam aqueles que creem que somente os justos ressuscitarão, e também refuta aqueles que não creem em ressurreição da carne. De quebra, ele também refuta os que pensam que os justos que morreram já estão na vida, e os que pensam que os ímpios que morreram já estão na condenação, pois diz que só depois que eles ressuscitarem é que entrarão na vida ou serão condenados (v.29).

5.31 se eu testemunho de mim mesmo, meu testemunho não é verdadeiro. Pela lei de Moisés, apenas o depoimento que era acompanhado por duas ou três testemunhas era considerado válido (Dt.17:6; Hb.10:28). Jesus testemunhava de si mesmo, mas seu testemunho só era válido porque o Pai também testemunhava a seu respeito (v.37), confirmando o testemunho de Cristo.

5.35 se alegrar em sua luz. V. nota em Jo.1:8.

5.39 investigai as Escrituras; porque vós pensais que nelas tendes a vida eterna. Jesus não estava condenando o livre exame dos judeus, mas sim o fato de eles não conseguirem identificá-lo nas Escrituras que eles examinavam. As Escrituras levavam a Cristo, os judeus examinavam as Escrituras, mas eles estavam rejeitando Jesus, o que mostra que eles estavam lendo com a disposição errada, já previamente dispostos a rejeitarem o Messias (vs.45-47).  Não adianta apenas examinarmos a Escritura; temos também que lê-la com as intenções certas e com o coração aberto e disposto a aprender cada dia mais.

5.42 não tendes o amor de Deus em vós mesmos. Não que Deus não os amasse, mas sim que eles não tinham amor no coração deles, por rejeitarem o Deus que lhes ama (v. nota em Jo.3:16). Não é o sentimento no coração de Deus que está em jogo aqui, mas o sentimento deles em relação a Deus, que é de rejeição, e não de amor.



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